segunda-feira, 25 de julho de 2011

O silêncio em Winnicott




Os analistas da Escola Inglesa de Psicanálise sustentavam que o silêncio deveria ser manejado para sustentar e reparar falhas ambientais nas quais o analisando passaria ao longo da sua vida, mas principalmente na infância.
A Escola Inglesa de Psicanálise se baseou fundamentalmente sobre as relações de objeto a partir de três grupos: os kleinianos, os annafreudianos e grupo do meio (middle group) ou grupo independente do qual Winnicott entre outros faziam parte.
Para Winnicott, o silêncio é necessário para a construção do “verdadeiro self” e do “processo criativo”. Ele é o elo necessário para o amadurecimento do desenvolvimento emocional, sobretudo na relação entre a mãe e o bebê. Por isso Winnicott justapõe o silêncio com a “capacidade de estar só”.
A comunicação silenciosa com os objetos subjetivos está na raiz do sentimento de ser real, e não apenas a serviço do recalque, dos mecanismos de defesa ou da pulsão de morte, como afirmam a maior parte dos teóricos da escola francesa ou do circulo de Viena. Pelo contrário, o silêncio é uma das condições para que o self se desenvolva e possa se sentir em vida na presença de outro, ou nas palavras de Winnicott, é preciso desenvolver na linguagem da interioridade, uma “capacidade de estar só”, mesmo que na presença do outro.
Na verdade, ele é um sinal dos mais importantes do amadurecimento emocional do indivíduo e depende da existência de um objeto bom internalizado na vida psíquica desse indivíduo para que este não venha desenvolver determinados estados patológicos tais como a depressão ou a solidão patológica resultante desta.
O silêncio, nesse sentido, é uma condição necessária, porém, não suficiente, para aquilo que Winnicott chamou a atenção, ou seja, uma das modalidades do desenvolvimento emocional do individuo e uma eminente “capacidade de estar só”.
Enfim, a capacidade de estar só, não significa estados patológicos ou depressivos. A capacidade de estar só, para Winnicott, supõe uma confiança no mundo através de hábitos maternos suficientemente bons, de modo a promover a integração do sujeito com o mundo e fornecendo os alicerces para uma vida criativa. Logo, para o autor, a comunicação silenciosa com objetos subjetivos está na raiz do sentimento de ser real, condição necessária para que o self se sinta vivo e se desenvolva.
O sentido de ser real está subsumido a noção de “acontecer enquanto sujeito”. Winnicott afirma que este é um estado originário é a base da qual o ser surge do não ser, no qual o indivíduo pode, inclusive, retornar a um estado de solidão ou solitude.
Solitude, segundo o psicanalista Gilberto Safra é um estado no qual o indivíduo inicia a experiência de si, como só. É um paradoxo winnicottiano, ou dito em outras palavras, o indivíduo acontece como sujeito a partir do momento que ele pode experimentar “ficar só” na “presença de outro”, momento este marcado pela dependência absoluta do bebê com sua mãe-ambiente.
É um encontro fundamente e necessário pelo qual o bebê deve passar, mas também é um momento sustentado pelo holding e handling maternos. De igual modo é importante ressaltar que esse silêncio na interioridade do si mesmo é uma oferta à morada do núcleo do self que jamais se comunica. Este é o lugar onde cada ser humano é silêncio. No bebê encontramos esse momento fundante através do uso do objeto transicional e do fenômeno transicional. De igual modo, este é o lugar da criatividade, do pensar e do espaço potencial que definirá a subjetividade de cada sujeito no mundo quando adulto.
O sujeito adulto que experimentou esse primeiro encontro fundante, em análise, pode experimentar estar só na presença do seu analista, sem experimentar um sentimento de despedaçamento, esvaziamento ou fratura do núcleo do seu self. Para tanto, é preciso que o analista se coloque na posição de mãe-objeto e mãe-presença e ao mesmo tempo seja um rosto “hospitalar” e fundamente, ou dito em termos winnicottiano, seja uma “face estética ao self” desse eu que se apresenta em análise.




Doutorando em Psicologia Clínica pela PUC-RIO; Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ; Email de contato: sergiogsilva@uol.com.br.

2 comentários:

  1. Parabéns Doutor Sergio Gomes. Gostei do texto. Estou fazendo um trabalho sobre Winnicott e seu texto me ajudou bastante.

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