quarta-feira, 6 de julho de 2011

O lugar do analista e do analisando: o silêncio na psicanálise II

Por onde começaríamos investigar o silêncio na psicanálise senão tentando discernir que tipo de silêncio a psicanálise tentou dar conta? 

Em psicanálise, há dois tipos de silêncios que devem ser considerados: o silêncio do analista e o silêncio do analisando. O que podemos apreender de cada um desses silêncios no setting analítico? Penso que podemos compreender o silêncio aquele que se institui na conjunção de dois inconscientes: o inconsciente do analisando e o inconsciente do analista, que se instalam justamente decorrido da conjugação desse par constituído por esse encontro.

A primeira coisa a se ponderar é que o silêncio se faz presente numa análise, sem o qual, não existiria abertura ao encontro de um Outro que sempre escuta com a “terceira orelha”, para usar a expressão de Theodor Reik. O analista se cala para que possa dar passagem à verdade do inconsciente do sujeito. Sua palavra só entra em cena para enfatizar o discurso do paciente, para perguntar o que fica interdito, ou ainda para se por, no mais das vezes, como espelho do Outro. 

O silêncio do analista funciona como um quebra-voz, conferindo à palavra dita uma densidade que o paciente não espera, deixando-o vazio e disponível para que se torne no Outro uma espécie de superfície pensadora onde o inconsciente possa se revelar adquirindo significado. É desse modo que Lacan afirmará que nunca haverá uma fala sem resposta, mesmo que esta só encontre o silêncio do analista, que em sua medida, é a própria função da análise, portanto, o silêncio do analista faz com que o paciente reflita sobre si mesmo a incidência de suas palavras. 

Não obstante, diz Lacan, é na medida em que o analista faz silenciar em si o discurso intermediário, para se abrir para a cadeia de palavras verdadeiras, que ele pode instaurar sua interpretação reveladora. 

A comunicação que ali se instala entre o par analítico, liga os inconscientes e os corpos que ali dividem aquele espaço, trabalhando silenciosamente e retendo as palavras que não são pronunciadas, os sofrimentos que estão por vir, a dinâmica da transferência que se estabelece pouco a pouco. Algumas vezes, o tormento do não dito sacode o corpo e não chega à consciência do analisando (poderia sacudir o corpo do analista na medida em que ele intervém com sua palavra), fazendo com que o silêncio seja a mais perfeita tradução de um sintoma em busca de sentido.

Assim, é o silêncio do analista que convoca um sujeito suposto saber e o lugar no qual a transferência se instalará, e bem sabemos que esta transferência poderá ser tanto positiva quanto negativa. Quando positiva, torna-se uma possibilidade de uma experiência baseada em um não saber; quando negativa, pode ser interpretada como resistência do paciente tal como formulou Sigmund Freud no seu texto “A dinâmica da transferência”.

Poderíamos, então, dar ao silêncio do psicanalista um estatuto metapsicológico? Podemos afirmar sem alguma dúvida que o silêncio do psicanalista realmente existe? 

Ora, de acordo com o psicanalista André Green, em “O discurso vivo”, se o analista é silencioso, esse silêncio precisa ser vivo e habitado por suas associações. Precisamos, pois, distinguir entre o silêncio como figura do vazio e o silêncio advindo de um calar-se. Tanto em um, quanto em outro, o que se observa é um trabalho de elaboração ao qual o analista se lança durante sua escuta silenciosa, do mesmo modo que o trabalho de elaboração (e perlaboração) que o analisando atravessa ao longo de uma análise. 

No entanto, para Green, o silêncio do analista precisa ser discutido sob dois pontos de vista: a primeira vertente foi posta por um grupo de analistas oriundos da Escola Inglesa de Psicanálise, na qual sustentavam que o silêncio deveria ser manejado para sustentar e reparar falhas ambientais nas quais o analisando passaria ao longo da sua vida, mas principalmente na infância. A segunda vertente trata-se daquela que tenta frustrar as expectativas do paciente sendo fiel à regra de ouro da psicanálise. Nesta vertente, o silêncio do analista sustenta o “desejo de nada saber” sobre seu paciente ou ainda o lugar do mutismo do analista (lugar do suposto saber) o qual é nada mais do que sinal de aceitação tácita do discurso do paciente. O discurso do paciente, neste sentido, se estabelece através de uma comunicação “infra-verbal” e “pré-verbal”, lugar da intersubjetividade. Sua função é a de ser um catalizador do material comunicado, apreendendo o seu sentido. 

De acordo com o autor, haveria um paradoxo entre essas duas posições: de um lado, o silêncio do analista teria uma função reparadora enquanto que do outro, o analista sustentaria o lugar do morto na análise, ou seja, a cadaverização do analista. 

Green não se coloca nem a favor de Deus, nem a favor do Diabo ao distinguir esses dois momentos do silêncio do analista. Aliás, ele se pergunta, “silêncio de qual analista, atrás de qual analisando, em qual sessão e em qual fase da análise?”.

Os analistas da Escola Inglesa não eram tão afoitos a frustrar o paciente em sua análise através do seu silêncio. Pelo contrário, a função de restituição de falhas ambientais ou parentais fazia com que estes analistas fossem mais ativos e menos neutros numa sessão, intervindo com certa frequência no discurso dos seus pacientes. 

Ainda de acordo com André Green, é preciso compreender o silêncio do analista como parte do enquadre analítico, no qual seu sentido só será elucidado no conjunto de condições que o definem e que constitui o “a priori” da psicanálise, ou ainda, dito de outro modo, a aplicação do método no tratamento psicanalítico. Logo, afirma Green, “assim como o sonho é o guardião do sono, o analista é o guardião do enquadre, cujo silêncio é o seu principal parâmetro”.

O silêncio do analista, assim compreendido, se sustenta a partir da perspectiva de que este independe da quantidade de palavras que são ditos ou não ditos, se é um silêncio interpretativo ou elaborativo, se é decorrente de associações do próprio analista de acordo com o discurso do seu paciente, ou se é função transferencial ou contra transferencial. Seu silêncio, no mais das vezes, se coaduna como uma tela de fundo sobre a qual se darão as figuras projetivas do paciente, circunscrevendo uma relação que se sustentará a partir dos laços transferenciais que une o par naquele encontro. 

Mais do que qualquer ruído, o silêncio do analista e do analisando é repleto de palavras silenciosas, portadoras de sentidos inconscientes de um e de outro, e até mesmo de sentimentos e sensações as quais não são colocados sob forma de discurso. Nesse sentido, o silêncio pode ser compreendido menos como resistência (apesar delas existirem) e mais como um discurso fecundo, estruturante, (re)generativo ou (de)generativo, pulsional, projetivo, fundacional, funcional, fusional, investido de sentimentos e sensações. Consequentemente, o silêncio do analista pode também significar para o analisando, dependendo do momento em que este se faça presente, como fusão, interesse ou desinteresse, cuidado ou relapso, cumplicidade ou indiferença, respeito, consentimento, raiva, sono, rejeição ou até mesmo desejo. 

De acordo com essa proposição, o silêncio do analista pode se constituir como um espaço, qual seja, um espaço potencial no qual ele encontrará condições para exercer o seu ofício. Compreendo este espaço potencial, no qual se sustenta do trabalho do analista, como aquele espaço onde se dará o encontro entre dois inconscientes que se dispõem a um trabalho laborativo e subsumido a um “não mais” e um “não ainda” do inconsciente do analisando.


 
Doutorando em Psicologia Clínica pela PUC-RIO; Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ; Email de contato: sergiogsilva@uol.com.br.

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