segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O SORRISO DE UMA CRIANÇA


 
Se existe algo belo na face da Terra, esse algo é certamente o sorriso de uma criança. Explico.
O sorriso de uma criança não é algo que se constrói. Não pode ser vendido. Não tem receita. Não tem marca. Não tem bula. Não tem selo. Não tem etiqueta. Portanto, não é falso. Ele é genuinamente verdadeiro.
O sorriso de uma criança vem de dentro do seu coração. Da pureza de um coração que ainda não aprendeu a mentir, a falsear, a enganar, a ser mal educado, a ser socializável, a ter um sorriso de soslaio como tem os adultos sempre nas horas mais impróprias.
Quando uma criança sorri, ela sorri porque algo a fez feliz naquele momento.
Ela sorri porque se recordou de algo bom que viveu. Seu sorriso é mais do que isso: ela pede, solicita e suplica que lhe devolva aquele momento que a fez recordar de uma boa lembrança ou de uma lembrança suficientemente boa.
Não é como nós adultos, que tomados da nossa empáfia quando encontramos alguém que não desejamos ou não gostamos, soltamos a esmo: “Oi querida(o), como você está? Tudo bom?” com um sorriso amarelo de orelha a orelha. Ao passo que escondemos em nossas mentes pensamentos atrozes tais como “Mas o que é que esse chato está fazendo aqui? Ai meu deus, lá vem essa mulher de novo? Que saco!”.
O sorriso de uma criança não é incongruente com o seu pensamento. Ela sorri porque acha que ela deva sorrir quando encontra algo que a faz feliz. Ela pede que a amemos como o fizemos antes, na sua parca memória.
Ela solicita nosso gesto espontâneo porque entende que, de fato, é verdadeiramente responsável por aquilo que cativou, como certa vez disse uma raposa.
Nenhum sorriso infantil, por conseguinte, vem desacompanhado por si. Ele geralmente trás consigo um brilho nos olhos quase marejados e “clorificados” de seu encanto e pureza sem igual e sem o qual não seríamos objeto nem do seu desejo nem do seu amor, muito menos do seu apelo. Toda mãe e todo o pai reconhece o sorriso do seu filho quando criança, e por este é reconhecido.
Com ou sem dentes, com ou sem lágrimas, com ou sem uma doce risada, com ou sem palavras, ninguém fica incólume ao sorriso de uma criança. Pelo contrário. Nós nos desapegamos da viscosidade de sermos adultos e nos agarramos firmemente ao sortilégio de, por um breve segundo sequer, voltarmos a agir como uma criança novamente.
Os consumidores compulsivos de “sorrisos infantis” certamente já passaram pela experiência de dizer ou fazer coisas que sequer tem correlato na linguagem infantil. São sons inaudíveis, caretas e gestos ridículos, que só esses “consumidores” verdadeiramente apaixonados “pelo sorrido de uma criança” são capazes de fazer.
Só um adulto pode tentar ser ou agir como uma criança, mas ele é incapaz de sorrir verdadeiramente como a criança que fora outrora. Em compensação, só uma criança pode sorrir com o ar de infante que lhe é característico, porque ela teve a sorte de (ainda) não passar pela sofismável e contaminável experiência de ser um adulto.
O sorriso de uma criança é generoso por si. Ele nos cala, mas também nos faz falar. Ele dói, mas a dor é prazerosa. Ela nos toca, mas não no coração, é na alma. Ele nos tira o fôlego, mas é para podermos respirar melhor no momento seguinte. Ele nos acalma. Nos aquieta. Pode até nos inquietar. Ele nos satiriza, mas é por uma boa causa. Ele nos dá esperança, mas essa esperança é vã.
A esperança vã é de saber que aquela criança e aquele sorriso pode até se perder no futuro sorriso do adulto que se transformará, mas em algum dado momento, ele retornará ao seu verdadeiro dono no instante exato que encontrar o sorriso de uma outra criança. A criança que foi. A criança que se é. A criança que se tornou.
Sorria.

(Para uma criança chamada Pedro)

7 comentários:

  1. Lindo, parabéns!
    Não a nada mais lindo que um sorriso de uma criança.

    Vânia Freitas.

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  2. Nada como alguém com sensibilidade para escrever sobre algo divino. Parabéns sempre.

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  3. Muito lindo... tocou o meu coração. Deviamos escrever muito sobre o lado belo da vida. Parabéns!!!
    Luísa Lamas

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  4. Nossa estou emocionada, que lindoo, tocou não só meu coração , mas minha alma.

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  5. Sergio, parabéns pelo belíssimo texto.

    Hoje, postei no G+ um pedacinho do seu texto com a sua fonte. Espero que não fique bravo comigo, pois adorei tanto que quis compartilhar com alguns dos leitores.

    Se me permitir, adoraria, postá-lo por inteiro.

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